A educação como mecanismo de autorrecuperação de mulheres privadas de liberdade da APAC de São João del Rei
Educação. Processos formativos. Mulheres privadas de liberdade. Gênero. Constituição do sujeito.
Esta pesquisa investiga os processos formativos antecedentes ao cárcere de mulheres privadas de liberdade, buscando compreender de que maneira as experiências educativas, afetivas, familiares, culturais e sociais participaram da constituição das subjetividades femininas e das trajetórias que antecedem a experiência prisional. Partindo de uma compreensão ampliada de educação, entendida não apenas como escolarização, mas como processo permanente de formação humana, a pesquisa desloca o olhar da educação prisional enquanto prática institucional voltada à ressocialização para os modos pelos quais os sujeitos são formados ao longo da vida. O estudo fundamenta-se nas discussões sobre gênero, raça, educação e constituição do sujeito, dialogando principalmente com as contribuições de Simone de Beauvoir, Paulo Freire, bell hooks, Lélia Gonzalez, Carlos Rodrigues Brandão e Paul Thompson. A investigação busca compreender como modelos históricos de socialização feminina, atravessados por expectativas de cuidado, amor, lealdade e renúncia de si, podem influenciar a construção das identidades e das relações estabelecidas pelas mulheres participantes da pesquisa. Metodologicamente, a pesquisa possui abordagem qualitativa e utiliza a História Oral como caminho de produção de conhecimento, considerando as narrativas das recuperandas da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) Feminina de São João del-Rei como fonte central de investigação. Foram realizadas rodas de conversa e produzidos registros escritos pelas participantes, valorizando suas memórias, experiências e interpretações sobre suas próprias trajetórias. Ao compreender essas mulheres como sujeitos históricos e produtoras de conhecimento, a pesquisa busca contribuir para ampliar as discussões no campo da Educação sobre processos formativos não escolares, evidenciando que a formação humana ocorre também nos espaços cotidianos, nas relações afetivas e nas experiências que atravessam a vida. Dessa forma, o estudo propõe refletir sobre a educação como possibilidade de constituição de si, problematizando práticas educativas que historicamente ensinaram mulheres a priorizar o outro em detrimento de si mesmas e buscando pensar caminhos para formas mais emancipatórias de existir e se relacionar.