Entre Paredes e Memórias:
Pixo e Patrimônio em São João Del-Rei
Interdisciplinaridade. Direito à cidade. Pixo. Patrimônio. São João del-Rei.
Embora, à primeira vista, pixo e patrimônio representem expressões urbanas contrastantes
— de um lado, o pixo, classificado como crime ambiental; de outro, edifícios históricos preservados
como representantes da memória oficial da cidade e da nação — ambos compõem registros
materiais e simbólicos de um mesmo território e de sua complexa construção social. Ao analisar
como essas manifestações dialogam e ocupam os mesmos espaços, o centro de São João del-Rei,
o estudo busca evidenciar as tensões e sobreposições entre a memória oficial e as expressões
urbanas dissidentes, propondo compreender o pixo não apenas como transgressão, mas como uma
linguagem visual que registra processos de contestação diante de uma realidade desigual, que se
impõe cotidianamente na vida das pessoas e se materializa na paisagem urbana. Nesse sentido, o
trabalho também debate como essas práticas se relacionam com a noção de direito à cidade,
entendida como a possibilidade de todos os sujeitos urbanos se expressarem, ocuparem e
transformarem os espaços que habitam, tensionando as narrativas hegemônicas e propondo novas
formas de pertencimento. Além disso, o trabalho compreende o pixo como parte de uma tríade
dialética — concebido, percebido e vivido — proposta por Henri Lefebvre (1983), que aponta as
disputas simbólicas e materiais entre diferentes classes sociais no espaço urbano. Essa tríade se
manifesta tanto por meio de estratégias de dominação explícita, como proibições, demolições e
expulsões, quanto pela apropriação simbólica e afetiva dos espaços urbanos, revelando um embate
constante entre as tentativas de controle e a resistência popular. O pixo, nesse contexto, opera
como prática que inscreve marcas e discursos não autorizados nos espaços patrimonializados,
desestabilizando narrativas oficiais e afirmando novas formas de existência e pertencimento na
cidade. A partir dessa perspectiva, pretende-se contribuir para o debate sobre as dinâmicas de
construção da memória, seus conflitos e como as múltiplas camadas da cidade podem revelar e
construir dialeticamente a realidade.