Reinar é Resistir: representatividades no Congado em Bambuí e os enfrentamentos à colonialidade
Congado; Reinado; Resistência; Bambuí; Cultura mineira; Patrimônio imaterial.
Esta dissertação propõe analisar os processos de institucionalização do Congado no interior de Minas Gerais a partir da trajetória da associação da ASCONSERB, em Bambuí, analisando a disputa de poder entre formas tradicionais de organização congadeira e as exigências normativas do campo social. Parte-se da hipótese de que a formalização jurídica e administrativa da associação congadeira não constitui mero avanço organizacional, mas um movimento atravessado por disputas simbólicas e reconfigurações de poder. Ancorada na teoria dos campos de Pierre Bourdieu, a pesquisa compreende o Congado como prática situada em um campo cultural tensionado pela busca de capital simbólico, reconhecimento institucional, acesso aos direitos e a recursos estatais. A inserção no campo burocrático implica a incorporação de disposições específicas, domínio da escrita formal, produção documental, racionalidade administrativa, que nem sempre correspondem ao habitus forjado na tradição congadeira. Nesse descompasso, evidenciam-se formas de violência simbólica, nas quais a ausência ou fragilidade documental passa a ser interpretada como incapacidade organizativa, obscurecendo desigualdades estruturais de acesso aos instrumentos de legitimação. Em diálogo com Leda Maria Martins, a dissertação reconhece o Congado como experiência de oralitura e temporalidade espiralar, na qual a memória se reinscreve performaticamente no corpo, no rito e no reinado. A exigência de linearidade documental imposta pelo Estado confronta-se, portanto, com uma lógica de transmissão que não se organiza prioritariamente pela escrita, mas pela performatividade ancestral. Metodologicamente, a pesquisa articula observação participante, entrevistas e análise documental, assumindo uma posição reflexiva quanto ao lugar da pesquisadora implicada no campo. Argumenta-se que a precariedade ou ausência de registros institucionais deve ser lida não como falha isolada, mas como efeito das fricções entre regimes distintos de produção de legitimidade. Conclui-se que a democratização das políticas culturais no interior depende do reconhecimento dessas epistemologias divergentes, sob pena de reproduzir mecanismos de tutela e exclusão simbólica.