DE PÚBLICO-ALVO A ALVO DO PODER PÚBLICO: UMA PSICANÁLISE DO DISCURSO DO CAPITALISTA E SUAS INCIDÊNCIAS NAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO BRASIL
Discurso do Capitalista; Acolhimento Protetivo Institucional; Políticas Públicas; Infância e Adolescência.
Buscamos, nesta pesquisa, mapear a incidência do Discurso do Capitalista na formulação e execução das Políticas Públicas de Assistência Social voltadas à infância e à adolescência no Brasil, com foco especial nas medidas de acolhimento protetivo institucional. Para isso, circunscrevemos alguns problemas crônicos do sistema de proteção, destacando como analisador central a reiteração do mesmo público-alvo (famílias pobres, negras e periféricas) nos circuitos de institucionalização. A partir de uma experiência de trabalho como psicóloga clínica em instituição de acolhimento e da continuação de um empreendimento de pesquisa anteriormente realizado no mestrado, propusemos a construção de crônicas analíticas como metodologia de leitura do campo. Ancoradas na psicanálise e na proposição lacaniana de que a verdade tem estrutura de ficção, essas crônicas buscam dar a ver pontos de tensão do cotidiano institucional, frequentemente apagados dos documentos oficiais e da produção acadêmica hegemônica. Nesse percurso, problematizamos questões como a extensão do tempo de permanência nos abrigos, o paradoxo entre proteção e punição e a redução normativa da noção de família que costuma orientar as práticas do sistema. Ao mesmo tempo, incorporamos um giro discursivo importante produzido no desenvolvimento da pesquisa: o reconhecimento das vidas enunciantes dos sujeitos que compõem o campo do acolhimento e as saídas subjetivas que constroem, com seus corpos e atos. Os achados indicam que, longe de uma posição passiva ou inteiramente capturada pela lógica institucional, esses sujeitos produzem invenções singulares com suas histórias, apontando brechas e modos de existência mais comunitários. Tal dimensão permite tensionar os efeitos do discurso capitalista, ao evidenciar que os chamados “alvos” das políticas públicas não se reduzem a objetos de intervenção, mas se constituem também como produtores de respostas e deslocamentos frente às tentativas de captura institucional.