A VELHICE COMO PROJETO DE SI: DISCURSO E RACIONALIDADE NEOLIBERAL NAS REVISTAS VEJA E VIVA A VIDA 60+
Velhice; Análise do Discurso; Neoliberalismo; Estereótipo.
Este trabalho insere-se na interface entre a Análise do Discurso de linha francesa e os estudos sobre a racionalidade neoliberal, tendo como objeto a construção discursiva da velhice na mídia brasileira contemporânea. Diante do acelerado envelhecimento populacional, investiga-se como os discursos midiáticos (re)elaboram os sentidos do envelhecer, articulando-os aos imperativos da racionalidade neoliberal (Foucault, 2008; Dardot; Laval, 2016). A hipótese central é que o discurso sobre a velhice sofre os efeitos do discurso neoliberal, deslocando a velhice do âmbito dos direitos coletivos para o domínio da gestão individual e da performance contínua. O corpus é composto por reportagens das revistas Veja e Viva a Vida 60+, publicadas entre 2023 e 2025. O referencial teórico articula a teoria da ideologia e dos Aparelhos Ideológicos de Estado (Althusser, 1980), a teoria do discurso de Michel Pêcheux (1995; 1997; 2008), a genealogia da razão neoliberal (Foucault, 2008; Dardot; Laval, 2016) e a análise das evidências discursivas (Guilbert, 2020). Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa e interpretativista (Celani, 2005; Saccol, 2009), operando em regime de alternância entre descrição da materialidade linguística e interpretação dos efeitos de sentido (Pêcheux, 2008). A análise demonstra que ambos os veículos evocam estereótipos ou expectativas sociais negativas sobre a velhice para, em um jogo discursivo de oposição e embate, ressignificar a velhice sob a lógica do empreendedorismo de si (Foucault, 2008). Conclui-se que a mídia opera como Aparelho Ideológico de Estado (Althusser, 1980), produzindo uma nova normatividade para o envelhecimento e instaurando o ideal de ser ativo, produtivo e autossuficiente, transferindo para o indivíduo a responsabilidade por processos que são estruturais e coletivos.