RESTAURAÇÃO FLUVIAL NO BRASIL: REVISÃO NACIONAL E ANÁLISE FUNCIONAL EM UMA BACIA TROPICAL (RIO DAS MORTES, MG)
Restauração fluvial; Metabolismo ecossistêmico; Decomposição da matéria orgânica; Riachos tropicais; Indicadores funcionais
Ecossistemas de água doce no Brasil têm sido intensamente impactados por processos de urbanização, industrialização e expansão agropecuária, resultando em perda de biodiversidade e degradação de serviços ecossistêmicos. Embora iniciativas de restauração tenham se expandido, ainda há lacunas quanto à sua distribuição, objetivos e, principalmente, à avaliação de seu sucesso. Esta dissertação integra uma revisão sistemática e um estudo empírico para investigar como a restauração de rios e riachos tem sido conduzida no Brasil e em que medida promove a recuperação do funcionamento ecológico.
A revisão de publicações científicas e projetos governamentais revelou predominância de ações em escala de bacia, concentradas na região Sudeste, com foco na melhoria da qualidade da água e na restauração da vegetação ripária. A avaliação do sucesso baseia-se majoritariamente em indicadores estruturais, como qualidade da água e habitat, sendo que parte significativa dos estudos e projetos não apresenta monitoramento formal, evidenciando a ausência de protocolos padronizados. O estudo empírico avaliou 15 riachos organizados em cinco triplets (natural–restaurado–impactado) na bacia do Rio das Mortes (MG), utilizando metabolismo ecossistêmico (GPP, ER e NEP) e decomposição da matéria orgânica como indicadores funcionais. Os resultados indicaram que o metabolismo não diferiu entre categorias de conservação, enquanto a decomposição apresentou diferenças significativas, com maiores taxas em riachos restaurados. Variáveis ripárias emergiram como os principais controles ecológicos, enquanto o uso do solo na bacia não apresentou efeito significativo. Além disso, metabolismo e decomposição responderam de forma desacoplada, sendo regulados por diferentes fatores ambientais.
O índice de sucesso da restauração evidenciou elevada variabilidade e trajetórias funcionais divergentes, incluindo frequente ocorrência de overshoot. Em conjunto, os resultados demonstram que a restauração estrutural não garante recuperação funcional e que o sucesso depende de múltiplos controles, especialmente em escala ripária. A dissertação destaca a necessidade de incorporar indicadores funcionais e abordagens integradas na avaliação da restauração ecológica em sistemas aquáticos tropicais.