ANÁLISE LONGITUDINAL DOS PARÂMETROS DO TESTE DE GERAÇÃO DE TROMBINA EM GESTANTES COM FATORES DE RISCO PARA PRÉECLÂMPSIA: ECLIPSE-BRASIL
Ppré-eclâmpsia; coagulação; teste de geração de trombina; hipercoagulabilidade; gestação.
Introdução: A pré-eclâmpsia (PE) é uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal, que associa-se a um estado de hipercoagulabilidade, cuja compreensão ainda é limitada. O Teste de Geração de Trombina (TGT) é um método global de avaliação da hemostasia, que avalia a interação entre fatores pró e anticoagulantes. Objetivou-se: (1) realizar uma revisão sistemática sobre a associação entre os parâmetros do TGT e PE; (2) analisar o comportamento longitudinal dos parâmetros do TGT em gestantes com fatores de risco para PE, participantes do estudo ECLIPSE-Brasil. Métodos: A revisão sistemática foi conduzida nas bases PubMed, LILACS, Web of Science e Embase, sem restrição de idioma ou período de publicação, segundo as diretrizes PRISMA e o protocolo registrado no PROSPERO (CRD42023477883). Inclui-se estudos observacionais que avaliaram parâmetros do TGT e sua associação com PE. O estudo de coorte teve delineamento prospectivo longitudinal, incluindo gestantes de alto risco atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS), acompanhadas em quatro períodos gestacionais (12–19; 20–29; 30–34; e >34 semanas). Foram coletadas amostras de sangue citratado, processadas para obtenção de plasma pobre em plaquetas (PPP) e testadas nas condições baixa concentração de fator tissular - FT (~1 pM) e concentração intermediária de FT (~5 pM), utilizando o método Calibrated Automated Thrombogram (CAT®, Diagnostica Stago). Avaliaram-se os parâmetros lagtime, time to peak, peak e endogenous thrombin potential (ETP). As análises estatísticas incluíram modelos lineares de efeitos mistos, em análises univariada e multivariada, ajustadas por covariáveis maternas e comparação entre grupos pelo teste de Kruskal–Wallis. Resultados: A revisão sistemática confirmou uma maior geração de trombina nos casos de PE. Contudo, gestantes com PE grave apresentaram geração de trombina menor quando comparadas à PE leve. Em relação ao estudo de coorte, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nos parâmetros TGT entre os grupos, em nenhuma idade gestacional ou concentração de fator tecidual (p>0,05). No entanto, no grupo de gestantes sem PE, observou-se variação longitudinal significativa dos parâmetros do TGT ao longo da gestação, caracterizada, de modo geral, por aumento do estado de hipercoagulabilidade entre 20–29 semanas e ≥34 semanas, nas duas condições avaliadas. Na análise multivariada, essas diferenças permaneceram significativas para peak, lagtime e time to peak em baixa concentração de fator tecidual, e para ETP, peak e lagtime em concentração intermediária. Não foram observadas variações significativas ao longo da gestação nos grupos com PE. Conclusão: É evidenciado a presença de alterações no perfil hemostático associadas à PE, apontadas pela maior geração de trombina observada na revisão sistemática. No estudo de coorte, embora não tenham sido identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, observaram-se que as gestantes sem PE apresentaram variações desses parâmetros, com aumento do estado de hipercoagulabilidade em determinados períodos. Esses resultados sugerem que, em gestantes de alto risco, o TGT pode refletir principalmente adaptações hemostáticas fisiológicas da gestação, sem discriminar o desenvolvimento de PE. Entretanto, são necessários estudos adicionais, com amostras maiores e diferentes populações, para confirmar esses achados e esclarecer o papel do TGT na prática clínica.