AVALIAÇÃO DOS EFEITOS DE EXTRATOS PADRONIZADOS DE Hancornia speciosa, Celtis iguanaea e Cannabis sativa SOBRE A ATIVIDADE DA GLICOPROTEÍNA-P
glicoproteína-P; células Caco-2; fexofenadina; Hancornia speciosa; Celtis iguanaea; Cannabis sativa; interação planta–medicamento.
As plantas medicinais apresentam composição química complexa e, quando administradas concomitantemente com medicamentos convencionais, podem interferir na farmacocinética dos mesmos, por meio da modulação de enzimas metabolizadoras de farmácos e transportadores de membrana. Entre esses transportadores, destaca-se a glicoproteína-P (P-gp), proteína de efluxo localizada em diversos órgãos, incluindo o intestino delgado, e que está envolvida na absorção, distribuição e eliminação de diversos fármacos. Este estudo teve como objetivo avaliar os efeitos de extratos padronizados de Hancornia speciosa Gomes, Celtis iguanaea (Jacq.) Sarg. e Cannabis sativa L. sobre a atividade da P-gp, utilizando modelo in vitro de transporte bidirecional em células Caco-2. A fexofenadina (FEX) foi empregada como substrato da P-gp e o verapamil (VER) como inibidor de referência. As células foram mantidas sobre membranas semipermeáveis durante 21 dias. Em seguida, a FEX foi incubada na ausência ou presença dos extratos e seu transporte foi avaliado nos sentidos apical-basolateral (AP→BL) e basolateral-apical (BL→AP), sendo determinados os coeficientes de permeabilidade aparente (Papp) e as razões de efluxo (ER). O VER reduziu predominantemente o transporte no sentido BL→AP da fexofenadina, com IC₅₀ estimado em 7,0 µM e 17% do controle, demonstrando a responsividade do sistema experimental à modulação de mecanismos de efluxo. O extrato de H. speciosa promoveu reduções da PappBL→AP nas concentrações de 50, 100, 200 e 400 µg/mL, sem alterações significativas no sentido AP→BL, o ajuste da curva apresentou platô inferior correspondente a aproximadamente 68% do controle e forneceu IC₅₀ de 12,0 µg/mL. O extrato de C. iguanaea também reduziu o transporte BL→AP nas concentrações de 6,25, 25, 100, 200 e 400 µg/mL, estabelecendo um platô correspondente a aproximadamente 60% do valor observado no controle, o ajuste sigmoidal forneceu IC₅₀ estimada em aproximadamente 0,11 µg/mL sem alterações significativas no sentido AP→BL. Os experimentos com C. sativa foram realizados e encontram-se em fase de análise, devido à presença de um possível interferente analítico. Embora esse perfil seja compatível com possível modulação da P-gp, não se pode excluir a participação de outros transportadores intestinais, uma vez que a absorção intestinal da FEX também é mediado por transportadores de influxo de íons orgânicos, cuja expressão no modelo utilizado neste estudo é incerta. Esses achados sugerem que nas concentrações testadas, os extratos de Celtis iguanaea e Hancornia speciosa parecem não promover uma interação clínica relevante com fármacos substratos da P-gp. Em relação aos canabinoides, devido a alta variabilidade dos resultados e uma possível interferência no Δ9-tetrahidrocanabinol e excipientes da formulação no pico cromatográfico da FEX, estudos adicionais utilizando os canabinoides puros ainda serão realizados contribuem para a compreensão de potenciais interações farmacocinéticas associadas ao uso concomitante de preparações de origem vegetal e medicamentos.