Eixo neurointestinal na doença de parkinson:
alterações histomorfológicas em modelo experimental induzido por rotenona
Doença de Parkinson, Rotenona, Eixo intestino-cérebro, C57BL/6.
A Doença de Parkinson (DP) é uma enfermidade neurodegenerativa progressiva e
multissistêmica caracterizada pela degeneração de neurônios dopaminérgicos da Substantia
nigra e pelo desenvolvimento de manifestações motoras e não motoras. Evidências crescentes
indicam que alterações em diferentes componentes do eixo intestino-cérebro participam da
fisiopatologia da doença; entretanto, a ocorrência simultânea de alterações comportamentais,
intestinais e encefálicas em modelos experimentais ainda permanece incompletamente
esclarecida. O presente estudo teve como objetivo investigar as alterações comportamentais e
histomorfométricas do cólon, do hipocampo e do estriado em um modelo murino de DP
induzido por rotenona. Foram utilizados 20 camundongos machos C57BL/6, distribuídos em
grupo controle (n=11) e grupo experimental (n=9), submetidos à administração diária de
veículo ou rotenona (30 mg/kg), por via oral, durante 28 dias consecutivos. Após o protocolo
experimental, os animais foram submetidos aos testes de Campo Aberto, Cilindro e Barras
Paralelas. Posteriormente, o encéfalo e o cólon foram coletados para análises histológicas com
hematoxilina e eosina. Os parâmetros observados no hipocampo e estriado foram número e
densidade de neurônios e células gliais. Enquanto os parâmetros do cólon foram cristas,
espessura da mucosa, células caliciformes e infiltrado celular. Os resultados foram considerados
estatisticamente significativos com p<0,05. No teste de Campo Aberto, observou-se diminuição
do número de empinamentos (34,80 ± 8,77 vs. 26,11 ± 7,33) e das linhas cruzadas (103,80 ±
28,61 vs. 81,67 ± 17,98) do grupo experimental comparado ao grupo controle. No teste do
Cilindro, o grupo experimentou teve redução do número de empinamentos (24,20 ± 5,14 vs.
17,89 ± 3,72;). No teste de Barras Paralelas, os animais tratados com rotenona apresentaram
aumento do tempo necessário para realização do giro de 90° (6,00 ± 2,11 vs. 9,00 ± 3,16),
aumento do tempo de travessia da barra de 60 cm (13,60s, 16,63s) e redução da velocidade de
deslocamento (0,226 ± 0,053 vs. 0,277 ± 0,067). A análise histomorfométrica revelou redução
significativa do número de neurônios nas regiões CA3 (66,03 ± 6,35 vs. 54,56 ± 7,55) e giro
denteado (308,93 ± 32,56 vs. 264,67 ± 30,42), acompanhada por redução da densidade neuronal
em ambas as regiões do hipocampo. O peso relativo do cólon foi maior no grupo experimental
do que no controle. Não foram observadas diferenças significativas nos demais parâmetros e
regiões. Os resultados demonstraram que a administração crônica de rotenona induziu um
fenótipo comportamental compatível com a DP experimental, caracterizado por redução da
atividade locomotora e exploratória. Conclui-se que a coexistência entre comprometimento
funcional, neurodegeneração seletiva do hipocampo e ausência de alterações
histomorfométricas detectáveis no estriado e no cólon indicam que diferentes tecidos
apresentam susceptibilidade distinta ao insulto neurotóxico nas condições experimentais
empregadas. Esses achados ampliam a compreensão da progressão da DP experimental e
reforçam a importância da avaliação integrada de alterações comportamentais e
morfofuncionais para o entendimento dos mecanismos envolvidos na comunicação entre o
sistema nervoso central e o trato gastrointestinal.